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Geisiara Lima reúne poesia, arte visual e memória feminina da Mata Norte em “Semeadoras”

  • Cultura

Há mulheres que atravessaram décadas sustentando casas, famílias, terras, saberes e modos de vida, mas raramente ocuparam o centro dos registros sobre a história dos lugares onde viveram. É para elas que a poetisa e artista visual Geisiara Lima dirige o olhar em Semeadoras, nova publicação da Editora Porta Aberta, que reúne textos e ilustrações assinados pela própria autora.

Natural da Mata Norte de Pernambuco, Geisiara parte das histórias das mulheres de sua família para construir uma obra que amplia esse olhar em direção a experiências compartilhadas por diferentes gerações da região. No centro de Semeadoras estão mulheres que criaram filhos, cuidaram da terra, administraram pequenas posses, mantiveram famílias e transmitiram conhecimentos em um território profundamente marcado pela história canavieira, pelos engenhos e por relações sociais atravessadas por gênero, raça e trabalho.

Uma dessas presenças é Maria Iraci, bisavó da artista e responsável por sua criação. Viúva ainda jovem, ela precisou conduzir uma família numerosa e lidar com questões ligadas à agricultura familiar, à terra e a uma rotina em que boa parte da sustentação doméstica recaía sobre as mulheres.

“Eu chamei de Semeadoras porque foram elas que semearam esse século, esse território. Eram as mulheres que davam conta da casa, da família, criavam os filhos e sustentavam muita coisa enquanto os homens iam trabalhar fora. Minha avó aparece muito nesse trabalho, mas ela também representa tantas outras mulheres daqui”, conta Geisiara.

A história familiar serve como ponto de partida, mas não como limite. A obra aproxima memória íntima e experiência coletiva para falar de trabalho, cuidado, religiosidade, racismo, desigualdade, resistência e das formas pelas quais essas mulheres permaneceram e construíram vida na Mata Norte.

Da exposição ao livro

Semeadoras nasce de uma série visual iniciada por Geisiara em 2024. A pesquisa chegou a cerca de 60 desenhos, dos quais 20 integraram sua primeira exposição individual. Na publicação, a artista reúne ainda 15 textos poéticos, aproximando de forma ainda mais evidente duas linguagens que acompanham sua trajetória desde a adolescência.

“Desde sempre minha linguagem foi artística e híbrida. Eu sempre escrevi e desenhei, ou desenhei e escrevi. Em Semeadoras, consigo me entender ainda melhor nesse lugar de artista da palavra e do traço. Para mim, uma linguagem não substitui a outra. Elas se complementam e são formas diferentes de expressar aquilo que estou tentando dizer”, explica.

A relação com a Mata Norte também atravessa diretamente essa criação. Mais do que reproduzir paisagens da região, Geisiara observa como a história da cana-de-açúcar, os engenhos, a agricultura familiar e as transformações econômicas e sociais do território chegam à vida cotidiana — especialmente à experiência de mulheres negras, trabalhadoras e responsáveis, muitas vezes, pela manutenção das próprias famílias.

É nesse encontro entre a história de uma região e aquilo que acontece dentro das casas que Semeadoras encontra sua matéria.

A passagem da série visual para o livro também responde a uma preocupação com circulação e acesso. Em uma região de intensa produção cultural, mas ainda marcada por dificuldades de deslocamento entre municípios e pela presença reduzida de espaços dedicados às artes visuais, a publicação permite que a experiência construída na exposição alcance outros públicos.

E essa circulação agora também acontece fisicamente. Semeadoras circula por Pernambuco e chega à Paraíba. O primeiro lançamento acontece no dia 10 de outubro, às 19h30, no Ateliê Valcira Santiago, em Goiana, espaço que guarda uma relação direta com a obra: foi lá que Geisiara apresentou sua primeira exposição individual Semeadoras, antes de o projeto ganhar formato de livro.

Na sequência, a publicação passa por Nazaré da Mata, novamente Goiana e Timbaúba, encerrando esta primeira agenda divulgada em novembro, durante a IX Feira Literária Internacional de Campina Grande (FLIC), na Paraíba.

No dia 14 de outubro, às 15h, Geisiara apresenta a obra no CREFAS – Centro de Referência e Formação da Criança e Adolescente Surdos, em Nazaré da Mata.

Em 20 de outubro, às 19h, o lançamento chega ao Sesc Ler Goiana.

Já em 31 de outubro, também às 19h, Semeadoras será apresentado no The Underground Rock Bar, em Timbaúba.

A circulação segue em 14 de novembro, quando a autora participa da IX Feira Literária Internacional de Campina Grande (FLIC).

A diversidade dos espaços por onde o livro passa também dialoga com o desejo de fazer a obra circular para além dos ambientes tradicionalmente associados à literatura ou às artes visuais.

OUTRAS OBRAS

Embora Semeadoras marque um novo momento de sua produção, as questões que atravessam o livro já vinham aparecendo em outros trabalhos. Em Corpo em Chamas, lançado em 2019, Geisiara reuniu poemas e ilustrações sobre a experiência feminina, a natureza, a religiosidade e as violências que atravessam a Zona da Mata.

Em 2022, lançou Caderno de Botânica da Mata, obra produzida durante a pandemia e atravessada também pela experiência da maternidade. O livro volta o olhar para plantas, ervas, benzedeiras, parteiras e saberes transmitidos entre mulheres, além das pequenas espécies que crescem nas calçadas e nos arredores de casa e muitas vezes são vistas apenas como “mato”.

Foi durante esse processo que Geisiara percebeu uma mudança importante na própria pesquisa. “Eu ia procurar referências em escritoras e personalidades que estavam distantes, quando tinha meus próprios exemplos no meu quintal, dentro da minha casa”, lembra. Em 2025, publicou Riacho Marias Pretas, pela Editora Porta Aberta.

Semeadoras aprofunda esse caminho, reunindo questões que atravessam sua produção há anos: memória, ancestralidade, território, experiência feminina e a busca por uma linguagem em que palavra e imagem possam existir juntas.

SOBRE A AUTORA

Geisiara Lima é natural de Itambé, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Mãe, poetisa, ilustradora, artista visual e agente cultural, é graduada em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Começou sua trajetória artística ainda adolescente, entre jornalzinhos, fanzines, ilustrações, recitais, coletivos e publicações independentes. Sua produção transita entre literatura e artes visuais e se volta, especialmente, para temas como memória, ancestralidade, feminismo, território, maternidade, raça e resistência.

Além dos livros publicados, participou de antologias, revistas, zines, exposições e diferentes iniciativas da cena cultural da Mata Norte.

Semeadoras
Autoria, textos e ilustrações: Geisiara Lima
Editora: Porta Aberta
Coordenação editorial: Philippe Wollney
Coordenação geral: Hevelyne Figueirêdo
Projeto gráfico e diagramação: Porta Aberta
Fotografia: Emanuelly Leite
Produção executiva: Azulyne Correntes Culturais
ISBN: 978-65-02-10643-3

O projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc Pernambuco e tem apoio financeiro do Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura do Estado via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura – Governo Federal.

SERVIÇO | Circuito de lançamentos

10/10 — Goiana
Ateliê Valcira Santiago
Rua da Conceição, 55, Centro, Goiana/PE
19h30

14/10 — Nazaré da Mata
CREFAS – Centro de Referência e Formação da Criança e Adolescente Surdos
Rua Barão de Tamandaré, 73, Nazaré da Mata/PE
15h

20/10 — Goiana
Sesc Ler Goiana
Rua Josias de Albuquerque, s/n, Centro, Goiana/PE
19h

31/10 — Timbaúba
The Underground Rock Bar
Rua Maciel Pinheiro, bairro Mocosinho, Box 6, Timbaúba/PE
19h

14/11 — Campina Grande/PB
IX Feira Literária Internacional de Campina Grande – FLIC
Horário e programação a confirmar

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