Do centro do Agreste Setentrional surge a Gema Sonora, movimento musical formado por artistas e criativos de Toritama e Santa Cruz do Capibaribe. Nesta quinta-feira (19), o coletivo lança seu segundo single, “Marginal da Brincadeira”, pelo selo Facção de Arte. O núcleo do projeto reúne Vinícius Tavares, Cássio Torres e Virgínia Guimarães, artistas que transitam entre artes visuais e experimentação sonora. Nas cidades onde a produção têxtil é pungente e mãos habilidosas mantêm, dia após dia, o título de Polo de Confecções de Pernambuco, o grupo costura outras coisas: tecidos sonoros da cultura popular, do jazz à música eletrônica — mas não somente.
A faixa, disponível nas principais plataformas de música, ganha visuais na sexta (20) e adentra o universo em expansão da Gema, que estreou nesses espaços no último ano com o single “Maria Vem Ver” (Facção de Arte, 2025), uma espécie de convocação — um manifesto artístico e geográfico atualizado. Na nova faixa, a viagem pelo Agreste continua, com arranjos em experimentação, como o minimalismo rítmico e o groove sincopado. A voz da sanfona faz sua estreia e brilha ao adicionar contornos melódicos e acentuar o tom de jam session do registro, alma do conjunto musical.
Em “Marginal da Brincadeira”, o blues rural e a embolada se reconhecem como parentes distantes — com raízes fincadas no improviso e na narrativa rítmica —, enquanto o baião se projeta sobre o pulso urbano do hip-hop. Um encontro improvável e, ao mesmo tempo, surpreendentemente natural e sofisticado. Ou “uma cipoada de som”, como descreve, na faixa, a cantora e repentista Jéssica Caitano. Artista revelação do Sertão do Pajeú e uma das referências do grupo, a compositora adiciona suas linhas em participação especial na track.
Assim como no single de estreia, a faixa sucessora mantém uma linha lírica em que o circuito artístico e independente do Agreste é apresentado e convocado a se reafirmar como lugar de uma cultura e produção artística pulsante. Nela, a Gema Sonora segue dizendo a que veio e se afirmando como revelação iminente. “Com a Gema ninguém pode./ Com a Gema ninguém mexe.” É também um convite ao interior e ao universo dos brinquedos carnavalescos pernambucanos, com menções a figuras como a La Ursa, o Mateu do Cavalo Marinho e ao Papangu.
“Estamos bem/ Quem não tá hoje vai ficar./ Quem não é hoje vai ser/ Quem não tá, fica sabendo/ que um dia pode ser”, dizem outros versos da canção. “É uma música feita para que as pessoas se sintam parte dessa brincadeira, que é séria. Enquanto artistas fazendo música, a gente diz que quem escuta também é artista. No palco, a gente está sob o holofote e sente. Mas quem está no palco também observa, e quem está no público, de certo modo, também está no palco”, analisa a multiartista Virgínia Guimarães, backing vocal na faixa.
A ficha técnica conta, ainda, com nomes como a cantora ABNA Monteiro, o instrumentista Gugu Sanfoneiro e o cantor e compositor Zeh Lucas, que aqui assume a bateria. Com composição e produção musical de Vinícius Tavares e apoio técnico de Cássio Torres nos arranjos sonoros, a faixa foi gravada na Birustation Estúdio e na sede da Facção de Arte, em Toritama, e no Estúdio de Sandova, em Santa Cruz do Capibaribe. O registro da capa, revelado com a técnica de cianotipia, é de autoria de Virgínia.
Uma omelete recheada
Desde o debut da Gema Sonora, a pesquisa iniciada em 2024 percorre paisagens físicas, simbólicas e sonoras do Agreste. São diversos os ingredientes do coletivo artístico: elementos que compõem o imaginário da região, como a Toyota Bandeirante adaptada para o transporte intermunicipal, a textura dos megafones de uso popular e comercial e territórios contemporâneos e redutos culturais, como o bairro da Palestina, em Santa Cruz do Capibaribe, e o Coletivo Cultural Respira, em Caruaru.
Entre as referências figuram também nomes já consolidados, como o ícone Alceu Valença, de São Bento do Una, a explosiva BaianaSystem e a expoente Jéssica Caitano. O núcleo é formado por Cássio Torres (guitarra e baixo), Vinícius Tavares (vocal e guitarra) e Virgínia Guimarães (DJ, sax soprano e vocal), mas o grupo também dialoga com outras linguagens artísticas e com o próprio universo do polo de confecções. Assim, o contato com o audiovisual, o design, a fotografia e o trabalho cotidiano do polo têxtil no Agreste também se tornam influências importantes.
“São referências de uma poética cotidiana do nosso próprio povo. Amigos e familiares nos dão ideias bonitas e recuperam expressões muito profundas. A partir disso, a gente constrói as sonoridades, e cada integrante vai colocando a sua parcela”, observa o vocalista Vinícius Tavares, para quem o resultado final se integra à cultura popular. “É claro que a gente dialoga com a música contemporânea, mas, para mim, isso é uma coisa só. Cultura popular é contemporânea. Ela é uma coisa do passado e, ao mesmo tempo, do futuro. Para mim, essas são as chaves.
Ficha técnica
Produção Musical, composição, vocal, guitarra base, mix e master: Vinícius Tavares
(@viniciustavaris)
Arranjos: Cássio Torres (@cassiotorres.caccio) e Vinícius Tavares
Guitarra riffs e baixo: Cássio Torres
Participação Especial (Vocal): Jéssica Caitano (@jessica.caitano)
Vocal (Backing): Virgínia Guimarães (@radioguimaraes) e ABNA (@abna_monteiro)
Bateria: Zeh Lucas (@zehlucs)
Sanfona: Gugu Sanfoneiro
Fotografia: Virgínia Guimarães
Revelação em cianotipia: Vinícius Tavares
Selo: Facção de Arte
Serviço
Lançamento do single “Marginal da Brincadeira”, da Gema Sonora
Quinta-feira, 19 de março de 2025 + visuais na sexta-feira (20)
Plataformas: Spotify, Deezer, Apple Music e YouTube Music
Foto: Divulgação
