Em meio ao avanço da fome no Brasil durante a pandemia de Covid-19, uma articulação entre igreja, movimentos sociais e moradores da periferia de Petrolina, no Sertão de Pernambuco, deu origem a uma das experiências mais consistentes de combate à insegurança alimentar na região. O projeto Mãos Solidárias, que completa seis anos em 2026, reúne hoje ações que vão da distribuição de alimentos à formação política e organização comunitária.
A iniciativa nasceu em um contexto de emergência, mas se consolidou como uma rede permanente de solidariedade e mobilização social. Durante o período mais crítico da pandemia, a ação chegou a produzir cerca de 500 marmitas por dia, de domingo a domingo, atendendo famílias em situação de vulnerabilidade.
“Se não fosse o Mãos Solidárias, muitas pessoas teriam enfrentado situações ainda mais graves, inclusive de adoecimento e morte”, afirma o reverendo Erlon Alves Bezerra, um dos articuladores da iniciativa.
Ligado à Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, o projeto expressa, na prática, uma compreensão de fé que ultrapassa os limites do templo. A atuação da igreja no território se dá não apenas pela dimensão espiritual, mas também pelo compromisso com a justiça social e com o enfrentamento das desigualdades.
“A missão cristã passa pelo cuidado com o outro e pela luta contra estruturas injustas. O Mãos Solidárias é um instrumento concreto dessa compreensão”, explica Erlon.
Solidariedade que organiza
Na prática, o Mãos Solidárias funciona como uma cozinha comunitária e um espaço de articulação popular. A Cozinha Solidária Margarida Alves, coordenada pela educadora popular Jucy Carvalho, atende diariamente famílias que ainda enfrentam dificuldades para garantir alimentação básica.
Para ela, o trabalho, apesar de necessário, revela uma contradição estrutural.
“Há quem ache bonito o trabalho das cozinhas. Eu acho necessário. Bonito mesmo seria que as pessoas tivessem condições de prover seu próprio sustento. O Estado deveria cumprir esse papel”, afirma.
A cozinha funciona com apoio de voluntários, doações e parcerias, incluindo a própria Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que mantém presença ativa e contínua no projeto. Ao longo dos anos, a igreja tem contribuído não apenas com estrutura e apoio institucional, mas também com a mobilização de pessoas e recursos.
Mais do que assistência, o espaço se tornou um ponto de formação e organização comunitária, especialmente entre mulheres e trabalhadores da periferia.
“A solidariedade aqui não é só assistência. É também construção de autonomia, de consciência e de luta por direitos”, resume Jucy.
Impacto que ultrapassa a assistência
Hoje, o projeto atua como um espaço de referência na região, reunindo diferentes iniciativas que vão desde a produção de alimentos até ações de formação, saúde popular e organização comunitária.
No bairro João de Deus, onde a cozinha está localizada, o impacto é visível. Muitas das famílias atendidas passaram a participar da gestão do espaço, em um modelo de autogestão que fortalece vínculos e amplia a participação social.
“Tem gente que não conseguiria garantir sua alimentação sem esse apoio. Mas também são pessoas que passam a se organizar, a compreender seus direitos e a lutar por eles”, destaca Erlon.
Fé que se transforma em ação
Seis anos após sua criação, o Mãos Solidárias se consolida como uma experiência que articula fé, solidariedade e transformação social. Mais do que responder a uma crise, o projeto aponta caminhos possíveis para o enfrentamento das desigualdades a partir da organização popular.
Essa perspectiva também é reforçada pela liderança da Diocese Anglicana do Recife. Para o bispo diocesano Dom João Câncio Peixoto Filho, iniciativas como o Mãos Solidárias traduzem, de forma concreta, a missão do Evangelho.
“Todos e todas nós somos chamados e chamadas a sermos discípulos e discípulas de Cristo, a servir ao Cristo e a dar testemunho do seu amor. Jesus veio para anunciar boas-novas, libertar os oprimidos e cuidar dos que mais sofrem. Por isso, a ação social é parte fundamental da missão da igreja, especialmente junto às pessoas mais necessitadas. Projetos como esse nos trazem alegria porque transformam realidades e concretizam o nosso papel como discípulos e discípulas de Cristo”, afirma.
A iniciativa integra uma rede de ações desenvolvidas pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil no Nordeste, conectando espiritualidade e compromisso social. Em Petrolina, esse trabalho se materializa no cotidiano de voluntários e moradores que transformam solidariedade em prática e resistência.
Em 2026, essa atuação ganha ainda mais significado com a celebração dos 50 anos da Diocese Anglicana do Recife, marco de uma trajetória construída a partir do diálogo, da inclusão e da atuação junto às populações mais vulneráveis.
Ao longo dessas cinco décadas, a Diocese tem consolidado uma presença que vai além do campo religioso, afirmando-se também como agente de transformação social. Em experiências como o Mãos Solidárias, essa missão se traduz em ações concretas que reafirmam o papel da fé na construção de uma sociedade mais justa.
SERVIÇO – CELEBRAÇÃO DOS 50 ANOS
Evento: Celebração de aniversário de 50 anos da Diocese Anglicana do Recife
Data: Quinta-feira, 30 de abril de 2026
Horário: 19h30
Local: Teatro da Academia Pernambucana de Letras
Endereço: Av. Rui Barbosa, 1596, Graças, Recife – PE
