Nascida em Pedra e criada em Ibimirim, Edja cresceu em uma família que enxergava a educação como caminho para o crescimento. Ainda adolescente, deixou a cidade ao lado do irmão para estudar em Arcoverde. Depois, seguiu para Campina Grande e começou a construir uma independência que também ajudaria a formar a mulher e a profissional que se tornaria.
A Psicologia não surgiu, inicialmente, como o primeiro caminho imaginado por Edja. Na juventude, ela chegou a pensar em Medicina, enquanto o curso de Psicologia aparecia entre as possibilidades para o futuro. Em 1998, foi aprovada em Psicologia no UNIPÊ, em João Pessoa, e, dois anos depois, ingressou na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), onde concluiu a graduação em 2004.
O que naquele momento ainda era uma escolha em construção ganhou novos significados ao longo da formação e, principalmente, da vida profissional. O interesse por leitura e escrita, a curiosidade pelas histórias humanas e uma característica que carregava desde cedo — gostar mais de ouvir do que de falar — encontraram lugar na profissão.
Ainda na graduação, Edja teve experiência em Psicologia Hospitalar, com atuação na área de Oncologia. Depois vieram especializações em Saúde Pública, Saúde Mental, Psicopedagogia e Psicopatologia, além do aprofundamento em abordagens clínicas como Logoterapia e Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).

Duas décadas entre diferentes realidades
A vida profissional começou em janeiro de 2005, justamente em Ibimirim, cidade onde havia crescido. Edja assumiu a função de psicóloga do CAPS I e coordenadora de Saúde Mental. A partir dali, sua trajetória passou por diferentes municípios e áreas, incluindo assistência social, saúde pública, docência, ambiente hospitalar e clínica.
Um dos períodos mais importantes aconteceu em Bezerros. Em 2009, começou a atuar no Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), onde permaneceu por 12 anos. A experiência no serviço público colocou Edja diante de diferentes histórias, contextos familiares e realidades sociais e ajudou a construir a forma como ela compreende o cuidado psicológico até hoje. “O serviço público foi uma grande escola para mim”, resume.
Para ela, aqueles anos ensinaram que o sofrimento humano não pode ser reduzido a um diagnóstico. Por trás de cada sintoma existe alguém inserido em uma família, em uma comunidade e em uma realidade própria, com vínculos, perdas, dificuldades e recursos que também precisam ser considerados.
A experiência reforçou ainda outra percepção: não é necessário chegar ao limite para procurar ajuda. Edja acompanhou, ao longo dos anos, uma mudança na própria relação das pessoas com a terapia. Se no início da carreira havia maior resistência e o acompanhamento psicológico era frequentemente associado apenas a situações graves, hoje ela percebe mais abertura para falar sobre saúde emocional, prevenção e autoconhecimento.


Quando a psicóloga descobriu a empreendedora
Depois de tantos anos construindo uma carreira ligada também ao serviço público, 2021 marcou uma virada. Ao encerrar o ciclo de 12 anos no NASF, Edja passou a direcionar mais atenção à clínica. Ela já mantinha consultório e realizava atendimentos particulares, mas começou a enxergar aquele espaço sob uma nova perspectiva: além de psicóloga, precisava aprender a gerir o próprio negócio.
Foi nesse processo que o empreendedorismo entrou de forma mais concreta em sua vida. Gestão, comunicação, planejamento e posicionamento passaram a fazer parte de uma rotina que, até então, estava muito mais concentrada na formação técnica. A mudança também ampliou sua percepção sobre as possibilidades da Psicologia para além do atendimento individual. “Hoje, vejo o empreendedorismo como uma forma de estruturar melhor o meu trabalho, ampliar o seu alcance e construir novas possibilidades profissionais sem perder aquilo que sempre esteve no centro da minha trajetória: o cuidado com as pessoas.”
Em 2025, outro passo foi dado com a expansão da atuação clínica para Caruaru. Atualmente, Edja atende na Capital do Agreste e em Bezerros enquanto estrutura novos projetos profissionais.


Saúde mental também dentro das empresas
Essa expansão ganhou uma nova frente a partir de 2023, quando Edja passou a atuar em uma empresa do setor de avicultura ligada ao agronegócio. A vivência no ambiente empresarial permitiu observar de perto questões relacionadas às relações de trabalho, comunicação e demandas emocionais dos colaboradores. A experiência despertou o interesse em aprofundar a atuação na saúde mental corporativa.
Em 2026, realizou uma formação como Implementadora de Saúde Mental no Ambiente Corporativo, ampliando os conhecimentos relacionados à identificação, avaliação e gestão dos riscos psicossociais associados ao trabalho. Para Edja, não se trata de abandonar um caminho para começar outro, mas de ampliar as possibilidades construídas ao longo de mais de duas décadas.
“Eu costumo pensar que a Psicologia está onde existem pessoas. Seja na clínica, nas empresas, nas instituições ou em outros espaços da sociedade, estamos lidando com pessoas que pensam, sentem, se relacionam e constroem suas histórias.”


Uma profissional que também mudou ao longo do caminho
As mudanças desses anos não aconteceram apenas na carreira. Edja reconhece que precisou rever cobranças e aprender a lidar com os próprios limites. Como mulher, mãe, esposa, profissional e, mais recentemente, empreendedora, ela também viveu períodos marcados pelo excesso de responsabilidades, preocupação, culpa e necessidade de controle. Em determinado momento, a sobrecarga teve repercussões em sua própria vida e saúde.
Foi necessário compreender que nem tudo poderia ser controlado ou resolvido por ela. “Não preciso ser perfeita em cada papel que desempenho”, afirma.
Essa experiência também influencia a maneira como observa questões que aparecem hoje no consultório, especialmente entre mulheres que tentam conciliar trabalho, família, relacionamentos e projetos pessoais enquanto convivem com a sensação de que precisam dar conta de tudo.
Depois de mais de 20 anos ouvindo histórias, Edja diz que também aprendeu com elas. Acompanhou pessoas enfrentando medos, tomando decisões difíceis, rompendo padrões e descobrindo recursos que antes não conseguiam reconhecer em si mesmas. E reforçou uma convicção que atravessa sua própria trajetória: pessoas podem mudar.

Agora, seus planos incluem ampliar os atendimentos, fortalecer a atuação no contexto empresarial e desenvolver novos serviços e produtos capazes de levar Psicologia e conhecimento para além do consultório.
Mais de duas décadas depois daquela jovem que saiu do interior para estudar, Edja continua encontrando novas possibilidades dentro da profissão que se tornou parte essencial de sua história. Ao longo desses mais de 20 anos, compreendeu que escolher a Psicologia foi uma das decisões mais importantes de sua vida. Mais do que uma profissão, encontrou nela realização, sentido e a possibilidade de contribuir para a vida das pessoas por meio do cuidado e da escuta.
Hoje, ao olhar para a própria trajetória, pode afirmar com convicção: “Eu escolhi a Psicologia, mas, de alguma forma, sinto que ela também me escolheu. E foi uma das melhores escolhas da minha vida.”


Esta matéria integra a série especial “Histórias que movem Pernambuco”, do portal Fique Sabendo PE, que apresenta histórias de profissionais, empresários e empreendedores que movimentam o estado por meio de suas trajetórias, negócios e propósitos.
