Quando Deivid Alisson Coelho da Silva chegou a Caruaru, em 2021, Pernambuco representava uma oportunidade profissional a quase dois mil quilômetros de suas referências. Cinco anos depois, o estado ganhou outro significado: tornou-se o lugar onde viu a carreira avançar, ampliou a família, criou novas relações e passou a construir memórias que já fazem parte de sua própria história.
Nascido e criado em Governador Valadares, Minas Gerais, Deivid, hoje com 35 anos, construiu uma trajetória profissional que começou longe dos cargos de gestão. Foi frentista, auxiliar administrativo, auxiliar financeiro e tesoureiro. Formado em Administração de Empresas, posteriormente fez pós-graduações em Gestão de Pessoas com ênfase em Estratégia, Docência do Ensino Superior e Neuropsicopedagogia.

Mas foi na educação que encontrou uma de suas maiores paixões. Deivid começou a dar aulas aos 23 anos e passou também pelas funções de coordenador e consultor pedagógico. A combinação entre Administração e Educação abriu novos caminhos profissionais e, durante a pandemia, uma consultoria realizada em Caruaru acabaria mudando também sua vida pessoal.
Em 2021, surgiu o convite para assumir a gestão da EBP Caruaru. Embora já tivesse o desejo de experimentar a vida em outra região, mudar para o Nordeste não estava nos planos. “Foi a verdadeira virada de chave em minha vida profissional e pessoal”, lembra.

A chegada em meio às fogueiras
Uma das primeiras lembranças de Deivid em Caruaru poderia facilmente ser confundida com um susto. Em sua segunda e definitiva vinda à cidade, encontrou Caruaru coberta pela fumaça das fogueiras. Era período junino, ainda durante a pandemia, e ele não compreendia completamente o que estava acontecendo.
Foi um taxista quem lhe explicou a relação dos caruaruenses com as festividades e fez uma previsão: que permanecesse até o ano seguinte para conhecer o Maior São João do Mundo. Deivid ficou.
No ano seguinte, finalmente conheceu a festa que havia despertado sua curiosidade e começou a compreender melhor uma cidade que descreve como historicamente rica e culturalmente viva.
A adaptação, no entanto, foi além do São João. Clima, culinária, geografia, horários, expressões e até formas de enxergar o cotidiano revelaram diferenças entre Minas Gerais e Pernambuco. Entre todas as características que encontrou, uma chamou especialmente sua atenção: a força empreendedora do Agreste.
Para alguém cuja trajetória reúne Administração, educação e gestão, foi também uma identificação profissional.


Quando Pernambuco virou casa
No início, aceitar a mudança significava manter aberta a possibilidade de voltar constantemente para Governador Valadares. Em Minas estavam familiares, amigos e grande parte das referências construídas até então. Com o passar do tempo, essa relação começou a mudar.
Deivid passou a conhecer outras cidades, estudar a história pernambucana, participar de atividades religiosas e ações sociais e construir novos vínculos. Até que percebeu algo diferente ao visitar Minas: na hora de se despedir, já sentia que estava voltando para casa quando embarcava para Pernambuco. “Isso não diminui o meu respeito pelas origens, mas amplia minha capacidade de empatia e admiração, tornando-me um verdadeiro defensor da cultura local e um apreciador de tudo o que ela tem a oferecer.”


E ele levou a missão de conhecer Pernambuco a sério. Das praias ao frio de Garanhuns, das ladeiras do Morro do Bom Jesus às estradas pela Serra das Russas, Deivid e a família fizeram da descoberta do estado parte da rotina. Aprenderam sobre a tábua das marés, incorporaram cuscuz e macaxeira com manteiga de garrafa ao repertório e passaram por igrejas, feiras, museus, sítios, parques e serras.
Segundo ele, mais de 50 pessoas já vieram conhecer Pernambuco direta ou indiretamente por sua influência, encontrando nele também uma espécie de guia e ponto de apoio. “Pernambuco é quase um país e há muito o que conhecer, mesmo após cinco anos vivendo aqui.”

Educação como ponto de encontro
Se Pernambuco se tornou casa, a EBP Caruaru foi uma das pontes para essa construção. Fundada em 2015, a instituição atua na educação profissionalizante e conta atualmente com cerca de 400 alunos, oito professores e 12 colaboradores. Quando Deivid assumiu a gestão, em 2021, encontrou uma escola que, assim como tantas empresas, ainda enfrentava as consequências e mudanças provocadas pela pandemia.
Era necessário rever processos, produtos e, principalmente, a gestão de pessoas. Durante sua administração, a instituição ampliou a proposta de cursos práticos e técnicos, ações externas, visitas técnicas e projetos voltados à comunidade. Entre as iniciativas estão campanhas de vacinação, ações de saúde, atividades de manutenção preventiva de veículos e oficinas relacionadas à empregabilidade, carreira, gestão e empreendedorismo.
Para Deivid, administrar uma instituição de ensino possui uma particularidade: o resultado nem sempre pode ser percebido imediatamente. “Vender um serviço educacional é vender uma experiência futura, é trabalhar com expectativas e, principalmente, com os sonhos das pessoas.”
É justamente acompanhar o que acontece depois da sala de aula que dá sentido a essa escolha. Após quase uma década e meia envolvido com educação, ele reencontra antigos alunos já inseridos no mercado, com famílias e negócios próprios, que ainda recordam ensinamentos compartilhados anos antes.

Uma história que começou com a própria mãe
Quando fala sobre o valor da educação, Deivid retorna à própria infância. Sua mãe, Ana Lucia da Silva Coelho, é apontada por ele como a grande responsável por mostrar que os estudos poderiam conduzi-lo por caminhos diferentes, mesmo diante da violência existente no ambiente onde cresceu.
Ela cobrava, orientava e insistia para que o filho encontrasse na educação possibilidades que fossem além das circunstâncias ao redor. “Nunca fui fruto do meio; sempre fui orientado a ser diferente e a buscar me posicionar com argumentação, postura e resultados reais.”
Décadas depois, o filho que aprendeu com a mãe a enxergar a educação como possibilidade de futuro fez dela também sua profissão.


A família como lugar de pertencimento
Fora da escola, Deivid diz que seu principal cargo é outro: pai de família. É casado há dez anos com Kátia Cristina, também mineira, e pai de Cecília, de 6 anos, nascida em Minas Gerais, e Augusto, pernambucano, de apenas três meses.
A chegada do filho caçula talvez seja um dos símbolos mais concretos dos laços que a família passou a construir com Pernambuco. Agora, Minas e Pernambuco não estão unidos apenas pela escolha de onde morar, mas pela própria história familiar.


Deivid gosta de dizer que a família é curiosa, religiosa e aventureira. Conhecer lugares, pegar a estrada e criar memórias funciona também como contraponto às responsabilidades de administrar uma instituição de ensino. “Minha empresa é minha responsabilidade com os colaboradores, alunos, fornecedores e clientes. Porém, a família é o que me move: onde ela estiver, ali será meu lar.” Hoje, esse lar está em Caruaru.

Um mineiro de coração pernambucano
Deivid ainda mantém o sotaque, as referências e o orgulho das origens mineiras. Mas já se define também como pernambucano de coração.
Para os próximos anos, planeja novos cursos e um novo posicionamento para a EBP Caruaru, além de continuar adaptando a instituição às transformações do mercado, da tecnologia e da própria educação profissional.
Na vida pessoal, pretende continuar fazendo aquilo que se tornou parte da identidade da família desde a mudança: conhecer, viajar, experimentar e construir histórias.

Cinco anos depois de atravessar o país para assumir uma oportunidade profissional, aquele mineiro que chegou sem imaginar que construiria a vida no Nordeste agora fala de Pernambuco como quem fala de casa.
E talvez seja justamente essa a maior mudança de sua trajetória: ele chegou ao estado para gerir uma escola, mas acabou descobrindo que alguns lugares deixam de ser apenas um endereço quando começamos a construir neles nossas próprias memórias. “Hoje estamos aqui em Pernambuco, sendo acolhidos e acolhendo outras pessoas também. As histórias que vivemos e construímos aqui jamais serão apagadas.”

Esta matéria integra a série especial “Histórias que movem Pernambuco”, do portal Fique Sabendo PE, que apresenta histórias de profissionais, empresários e empreendedores que movimentam o estado por meio de suas trajetórias, negócios e propósitos.
