Muito antes da maquiagem colorida, do nariz vermelho e do figurino azul, já existia em Flávio Passos uma relação especial com o universo dos palhaços. Ainda criança, antes mesmo dos cinco anos, ele teve os primeiros contatos com o circo, incentivado também pela mãe, Beta Passos, admiradora da arte circense. O encantamento cresceu com ele e, anos mais tarde, daria origem ao personagem que atravessaria quase quatro décadas de sua vida.
No próximo dia 12 de outubro, o Palhaço Arco-Íris completa 39 anos de história. Criado em 1987, na Capela de Santana, em Olinda, o personagem nasceu quando Flávio ainda era estudante de Jornalismo e fez sua primeira apresentação durante uma festa filantrópica para dezenas de crianças.
Aquele encontro com o público seria apenas o começo.

Uma paixão que começou antes do personagem
A ligação de Flávio com os palhaços remonta à infância. Na década de 1970, ele começou uma coleção dedicada ao tema. Entre as primeiras lembranças está um card com desenho em alto-relevo que acompanhava chocolates. Com o passar dos anos, vieram peças de porcelana, crochê, biscuit, barro, madeira, tecido e diversos outros materiais.
Em 2024, quando o Fique Sabendo PE contou essa história, a coleção já ultrapassava 200 itens.
Relembre a reportagem do Fique Sabendo PE sobre a coleção de Flávio Passos ⤵️
Mas o palhaço deixou de ser apenas um objeto de admiração para ganhar rosto, nome e personalidade. Na adolescência e juventude, Flávio foi construindo o Arco-Íris, personagem que levaria para a vida adulta e que se tornaria indissociável de sua própria trajetória.
Até o nome carrega uma lembrança afetiva. Flávio sempre se encantou com o imaginário popular do pote de ouro encontrado no fim do arco-íris. No personagem, as cores ganharam a maquiagem e o figurino, predominantemente azul, ao lado de elementos que remetem diretamente a Pernambuco.


Das festas infantis aos grandes carnavais
Foi principalmente durante a década de 1990 que o Palhaço Arco-Íris ganhou projeção. O personagem apareceu em reportagens, revistas, campanhas educativas e ações voltadas para o público infantil, numa época em que Flávio já defendia uma concepção que continuaria acompanhando seu trabalho: divertir crianças sem transformar a infância em estímulo permanente ao consumo.
A cultura, o lúdico e a educação deveriam estar no centro. O Arco-Íris também conquistou espaço em alguns dos maiores eventos populares de Pernambuco. Flávio esteve à frente da criação do primeiro carnaval infantil de Olinda, criou o concurso do Rei Momo e da Rainha do Carnaval Infantil de Pernambuco e o Bloco Arco-Íris e a Turminha do Pinguim, no extinto Recifolia.
Em Olinda, o personagem chegou a comandar a abertura oficial do carnaval infantil, recebendo simbolicamente a chave da cidade ao lado dos Monarcas de Momo. No Recifolia, puxou o primeiro bloco direcionado às crianças.
A trajetória ultrapassou as fronteiras pernambucanas e brasileiras. Com o personagem, Flávio realizou apresentações em cinco países: França, Alemanha, Argentina, Suíça e Dinamarca, incluindo participação no carnaval dinamarquês.

Quando fazer rir também significa cuidar
Por trás do sucesso nos palcos e carnavais, existe uma parte da história que ajuda a explicar por que Flávio manteve o Arco-Íris vivo durante tanto tempo.
O riso também virou serviço. Ao longo da trajetória, o personagem participou de trabalhos voluntários em mais de 50 instituições, entre hospitais e entidades sociais. A lista inclui Hospital do Câncer, GAC-PE, NACC, AACD, Círculo do Coração, entre outras. Flávio também esteve envolvido na implantação de duas oficinas de palhaçoterapia.
Campanhas educativas também passaram a fazer parte desse caminho. O Arco-Íris esteve envolvido em iniciativas de incentivo à leitura e em projetos de conscientização, como o “Basta, eu quero paz”, de combate à violência. Flávio é ainda autor da música “Palhaço Arco-Íris”.
É justamente nessa combinação entre entretenimento, educação e atuação social que o artista identifica a essência do personagem que criou. “O Arco-Íris nasceu para fazer rir, mas, ao longo desses 39 anos, eu entendi que o riso também pode acolher, educar e levar esperança. Olhar para essa trajetória é perceber quantas vidas se encontraram com a minha através desse personagem”, afirma Flávio Passos.


Um personagem que já inspira outros palhaços
Quase quatro décadas depois da primeira apresentação, o Arco-Íris continua em atividade. Mas talvez uma das demonstrações mais significativas de sua permanência esteja naquilo que surgiu depois dele.
Ao menos seis personagens já foram criados sob sua inspiração, entre eles os palhaços Lorota, Chulezinho, Charmosinho, Penetra, Arco e Íris. Parte desses artistas também passou a desenvolver trabalhos levando alegria a crianças hospitalizadas.
É um legado que ultrapassa a figura de Flávio e ajuda a manter viva uma tradição artística que ele procura associar à identidade pernambucana. Frevo, ritmos regionais, cores e a tradicional sombrinha aparecem em suas apresentações e caracterizações.
Em 2024, Flávio decidiu registrar parte dessa caminhada em “Por Trás do Riso: A História”, vídeo-depoimento em que revisita a trajetória construída em torno do personagem.
Assista ao vídeo-depoimento “Por Trás do Riso: A História”

Aos 61 anos, Flávio continua dando vida ao Arco-Íris e também a outros personagens, com apresentações em aniversários, eventos culturais e corporativos. O artista ainda mantém o sonho de deixar para as próximas gerações uma escola circense.
E a arte está longe de ocupar apenas um capítulo de sua história profissional. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Flávio atua como produtor cultural, mestre de cerimônias e ator. Com 20 viagens internacionais, chegou até a fazer uma participação em uma novela em Portugal.
Depois de 39 anos, talvez seja difícil determinar exatamente onde termina Flávio Passos e começa o Palhaço Arco-Íris. O menino que se encantou pelo circo cresceu, tornou-se jornalista e artista, conheceu diferentes países e atravessou gerações, mas preservou algo daquela primeira fascinação.
O personagem criado para fazer crianças sorrirem em uma festa filantrópica, em 12 de outubro de 1987, continua em cena. E, entre palcos, carnavais, hospitais e encontros construídos ao longo de quase quatro décadas, o Arco-Íris deixou de ser apenas um personagem para se tornar parte da história de quem o criou — e da memória de muita gente que cresceu sorrindo com ele.


Esta matéria integra a série especial Histórias que movem Pernambuco, do portal Fique Sabendo PE, que apresenta histórias de profissionais, empresários e empreendedores que movimentam o estado por meio de suas trajetórias, negócios e propósitos.
