Antes de se tornar médica e dedicar seus dias a cuidar de pessoas que enfrentam alguns dos momentos mais difíceis de suas vidas, Daniela Lucena cresceu cercada por referências que ajudariam a definir não apenas a profissão que escolheria, mas também a forma como enxergaria o cuidado com o outro.
Nascida em Brejo Santo, no Ceará, Daniela foi criada em uma família tradicional e católica, em uma infância que descreve como muito feliz. Foi dentro de casa que aprendeu valores que levaria para a vida adulta e, mais tarde, para o consultório. A Medicina também estava por perto: vinda de uma família de médicos, cresceu familiarizada com uma profissão que, segundo ela, sempre esteve em seu coração.
Para transformar essa identificação em carreira, no entanto, foi preciso sair de perto de quem amava. Daniela seguiu para o Tocantins para cursar Medicina, enfrentando um dos primeiros grandes desafios de sua trajetória: a distância da família.
A saudade pesava, mas havia uma razão que a fazia seguir adiante. Quanto mais avançava na graduação e vivenciava os estágios, mais compreendia que queria usar a Medicina para aliviar o sofrimento das pessoas. Foi também durante a faculdade que a Psiquiatria começou a ocupar um espaço especial em sua história. “A saúde mental me fez enxergar o mundo de outra forma. A Psiquiatria me fez ver as pessoas além da aparência, das dores e das emoções”, conta.


Quando cuidar da mente se tornou uma escolha
O contato com os pacientes durante a formação confirmou o caminho que Daniela começava a desenhar. Não se tratava apenas de identificar sintomas ou estabelecer tratamentos. O que a atraía era a possibilidade de compreender histórias, acolher dores que nem sempre eram visíveis e ajudar pessoas a recuperarem aquilo que o sofrimento psíquico havia tirado delas.
Foi assim que decidiu seguir pela Psiquiatria. Inicialmente, sua atuação era voltada aos adultos. Com o tempo, porém, uma nova realidade começou a aparecer dentro do próprio consultório: a procura por atendimento para crianças aumentava. Diante da demanda, Daniela percebeu que precisava ampliar sua formação e buscou especialização também na Psiquiatria Infantil.
A escolha trouxe consigo uma compreensão ainda mais profunda sobre a importância dos primeiros anos de vida na construção emocional de cada pessoa. Para Daniela, cuidar da saúde mental é necessário em qualquer idade, mas a infância ocupa um lugar especialmente sensível. É nesse período que experiências, vínculos e vivências podem deixar marcas que acompanham uma pessoa por muitos anos. “A infância é um chão que pisamos por toda a vida”, resume.


Entre histórias difíceis e a possibilidade de recomeçar
No consultório, Daniela passou a conviver diariamente com histórias que nem sempre são fáceis de ouvir. São pacientes atravessados pela depressão, ansiedade e outros sofrimentos psíquicos, alguns deles já sem conseguir enxergar sentido na própria existência.
Entre os casos que mais a marcaram estão justamente os de pessoas que, mesmo tendo perspectivas, projetos e uma vida inteira pela frente, perderam para a depressão a vontade de continuar vivendo. É também nesses momentos que Daniela encontra uma das maiores razões para permanecer na profissão. “O que me mantém na Psiquiatria é saber que consigo tirar pessoas do fundo do poço, pessoas que perderam todo o sentido da vida. Com a minha profissão, consigo devolver àquela pessoa a vontade de viver”, afirma.
A responsabilidade, entretanto, cobra seu preço. Para uma profissional que passa os dias em contato direto com dores tão profundas, aprender a estabelecer limites entre aquilo que pertence ao paciente e aquilo que leva para a própria vida tornou-se um exercício constante. Daniela reconhece que um dos maiores desafios da profissão é justamente preservar a própria saúde mental enquanto acolhe diariamente o sofrimento psíquico de tantas outras pessoas. Da mesma forma, conciliar a intensidade da carreira com a vida pessoal continua sendo um aprendizado.


Uma Psiquiatria mais humana
Ao acompanhar as mudanças na forma como a sociedade fala sobre saúde mental, Daniela também percebe avanços importantes. Para ela, a Psiquiatria tornou-se mais humanizada ao longo dos anos, enquanto parte dos estigmas historicamente associados ao tratamento psiquiátrico começou a perder força. Ainda assim, há barreiras.
O preconceito em procurar um psiquiatra continua fazendo com que muitas pessoas adiem o atendimento e cheguem ao consultório apenas quando os sintomas já se intensificaram. Esse cenário ganha um novo componente em uma sociedade cada vez mais conectada. Daniela observa com preocupação os efeitos do uso excessivo das redes sociais sobre o equilíbrio emocional, especialmente quando a fronteira entre aquilo que é mostrado no ambiente virtual e a vida real começa a se confundir.
Na avaliação da médica, a hiperconexão tem afetado relações, expectativas e a maneira como muitas pessoas percebem a si mesmas e aos outros. Por isso, defende que buscar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico não deveria ser encarado como último recurso, mas como parte do cuidado com a saúde.

A família como ponto de sustentação
Se ao longo da profissão Daniela se tornou apoio para tantas pessoas, na própria caminhada foi na família que encontrou sua principal base. Ela atribui aos pais e aos irmãos parte fundamental da mulher e da profissional que se tornou. Mesmo quando estava distante fisicamente, saber que tinha a família ao seu lado lhe dava forças para continuar.
Hoje, ao olhar para o caminho percorrido desde Brejo Santo, passando pelos anos de formação longe de casa até a consolidação de sua atuação na Psiquiatria de adultos e crianças, Daniela encontra seu maior orgulho não em títulos, mas nas vidas que conseguiu alcançar. “O que mais me orgulha é saber que pude ajudar tantas pessoas e que a profissão que escolhi já salvou tantas vidas”, afirma.
O futuro, para ela, passa pela continuidade desse mesmo propósito: exercer a Medicina com amor e empatia e seguir se preparando para oferecer um cuidado cada vez melhor. Em sua fé, também encontra parte dessa direção. Daniela diz pedir a Deus que continue lhe dando capacidade para cumprir a missão que escolheu.


Depois de acompanhar de perto pessoas que perderam a esperança e outras que conseguiram reencontrá-la, a psiquiatra carrega uma convicção que sintetiza boa parte de sua trajetória: não existe saúde completa quando a mente não está bem. “Quando as pessoas entenderem que a saúde mental está no controle da nossa vida e que sem saúde mental não há saúde, a vida será mais colorida e mais fácil de lidar com os problemas. Nossa saúde mental é tudo para podermos continuar lutando e vivendo.”
Para Daniela Lucena, foi justamente nessa possibilidade de ajudar alguém a voltar a lutar e a viver que a Medicina deixou de ser apenas uma profissão que conheceu ainda dentro de casa e se tornou o propósito que continua guiando sua própria história.


Esta matéria integra a série especial Histórias que movem Pernambuco, do portal Fique Sabendo PE, que apresenta histórias de profissionais, empresários e empreendedores que movimentam o estado por meio de suas trajetórias, negócios e propósitos.
